Jorge Carrega – Membro Residente do Júri do 2º FARCUME

Posted: 05/03/2012 by Nuno Antunes in Entrevistas
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Jorge CarregaJorge Manuel Neves Carrega é natural de Faro.  Presentemente colabora com o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Universidade do Algarve onde desenvolveu o seu doutoramento em estudos fílmicos como bolseiro da FCT e lecciona as disciplinas de História do Cinema na UAlg e de Recursos Culturais no INUAF.

Foi colaborador da ERTA para a qual elaborou o “Guia do Património Cultural do Algarve” e é o autor dos livros “A Ermida de Santo António do Alto” e “Elvis Presley e o Cinema Musical de Hollywood”.

É associado da “FARO 1540” e tem a responsabilidade de ser um dos membros residentes do júri do FARCUME.

Para além do tempo de duração quais são as principais diferenças entre uma longa-metragem e uma curta-metragem?

É importante notar que desde cedo o formato da curta-metragem foi relegado para segundo plano pela indústria de cinema, sendo normalmente utilizado por cineastas com poucos recursos económicos e que na maioria das vezes trabalham fora do sistema de produção institucional. Significa isto que a maioria das curtas-metragens portuguesas (e não só) são  produzidas por jovens em inicio de carreira, obrigando os realizadores, argumentistas e equipas técnicas a fazerem uso de todo o seu talento e imaginação para contornar as naturais dificuldades que enfrentam. No entanto, esta economia de meios acaba por se traduzir numa maior liberdade criativa, uma vez que a ausência de grandes investimentos financeiros os liberta da pressão exercida pelos produtores cujo objectivo principal é naturalmente o da rentabilização comercial.

 No que diz respeito às curtas-metragens de ficção, a grande diferença reside na economia narrativa, isto porque, dadas as limitações de tempo, é difícil ao argumentista e ao realizador desenvolverem histórias complexas e que apresentem uma boa caracterização psicológica dos personagens.  Isto obriga naturalmente a um depuramento narrativo que, quando bem feito,  constitui na minha opinião um dos factores mais interessantes deste tipo de filmes.

 Qual é a tua opinião sobre a qualidade das curtas-metragens portuguesas?

Naturalmente existe o bom, o mau e o assim-assim. No entanto, em termos gerais penso que a qualidade é boa e revela o talento dos nossos realizadores, a maioria dos quais são ainda jovens à procura de oportunidades de carreira e em particular da possibilidade de realizarem uma longa-metragem em que possam trabalhar com bons meios de produção. Só espero que não acabem a realizar telenovelas na SIC e na TVI.

Como Professor de História do Cinema e investigador na área dos estudos fílmicos, como vês o cinema em Portugal?

Com um misto de apreensão e satisfação. Por um lado lamento que se produzam tão poucas longas metragens em Portugal e que os espectadores nacionais revelem um interesse tão reduzido pelo cinema português ao contrario do que sucede em Espanha, Itália ou França. Por outro lado, congratulo-me por ver reconhecido internacionalmente o talento de cineastas como o Manoel de Oliveira, o Pedro Costa e o já desaparecido João Cesar Monteiro, mas também pelo reconhecimento de jovens realizadores como o João Salaviza e o Miguel Gomes, cujas curtas-metragens foram recentemente premiadas no Festival de Berlim.

E na tua opinião quais são as razões para este desinteresse do público português pelo cinema nacional?

Na verdade penso que os espectadores portugueses se interessam cada vez menos por cinema  limitando-se a consumir produtos televisivos e a ver alguns filmes em casa, muitas vezes “sacados da net”.  Infelizmente o cinema comercial de Hollywood domina completamente o circuito de distribuição nacional (incluindo os canais de televisão) o que faz com que a maioria dos portugueses estejam completamente formatados para um modelo de entretenimento que nada tem a ver com o cinema de autor que se pratica em Portugal e noutros países europeus, o qual exige uma maior disponibilidade intelectual da parte dos espectadores.

 E como contrariar esta situação?

Em primeiro lugar penso que seria necessário impor uma quota para a exibição de filmes europeus nas salas de cinema e nos canais televisivos, abrindo deste modo espaço a filmografias riquíssimas que neste momento estão completamente afastadas dos grandes espaços de divulgação de cinema. Em segundo lugar apostando numa generalização do ensino da historia do cinema e da literacia dos Media em todos os graus de ensino de modo a que as próximas gerações de espectadores sejam mais conscientes e tenham maior capacidade critica sobre a produção audiovisual que consomem.

 Na qualidade de membro residente do  júri desta 2ª edição do FARCUME qual é a tua expectativa para este festival?

Espero naturalmente que surjam obras de qualidade a concurso e que o FARCUME possa deste modo servir como um espaço de divulgação do trabalho dos realizadores portugueses.  Acredito sinceramente que o esforço que está a ser colocado na organização deste evento vai permitir consolidar o FARCUME e prestigiar não apenas a FARO 1540, mas também a nossa cidade.

 Consideras que um festival desta natureza poderá ser uma mais-valia para a oferta cultural da região algarvia?

Sem dúvida! Como sabes uma das actividades profissionais que tenho desenvolvido ao longo dos anos passa precisamente pela promoção e valorização turística do património cultural algarvio. Ora o FARCUME, pelo facto de se realizar em plena época alta turística e de trazer à cidade realizadores e entusiastas do cinema que não são naturais de Faro, representa uma óbvia mais valia não só para a oferta cultural da cidade, mas também para o nicho do turismo cultural que na minha opinião deve assumir um papel cada vez mais importante na estratégia de diversificação da oferta turística algarvia.

 Esta edição conta já com várias curtas-metragens brasileiras. Como vês esta internacionalização do festival já na sua 2ª edição?

Com enorme agrado! O Fernando Pessoa disse um dia que a nossa língua é a nossa pátria. Pois bem, acredito que o futuro do FARCUME passa obrigatoriamente pela sua internacionalização e que nesse sentido o primeiro objectivo deve ser o da sua divulgação nos países de língua oficial portuguesa. O facto de recebermos trabalhos do Brasil é um sinal de que esta visão estratégica é correcta e que de que estamos a contribuir para o dialogo cultural entre países irmãos.

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